Language

Cena na Bolivia Esquenta

La Paz, BOLIVIA - Um assassinato insólito, um conflito cultural e uma sacudida nos movimentos sociais marcam o novo momento sócio-político na Bolívia. No dia 14 de junho deste ano, o então prefeito do pequeno municipio de Ayo Ayo, Benjamin Altamirano, foi seqüestrado, torturado, assassinado, queimado e, finalmente, exibido morto em praça pública. O ato foi assumido por toda a população local, predominantemente da etnia indígena Aymara, e justificado pela tradicional idéia da justiça comunitária. A partir desses acontecimentos, diversos líderes de movimentos sociais da região foram presos preventivamente sem a existência de provas concretas. Entre essas prisões, esta a de Gabriel Pinto – líder do MST boliviano – ocorrida na manhã desta quinta-feira (12/08), e que poderá desencadear uma série de ações de revolta por parte dos movimentos socais em todo o país.
 O então prefeito de Ayo Ayo, Benjamin Altamirano, era acusado de má gestão e de corrupção pelos moradores do municipio. Além disso, Altamirano exercia seu mandato desde La Paz, capital boliviana, protegido pela chamada Lei de Municipalidades do país.
 Cansados da inoperancia da justiça estatal, os hábitantes de Ayo Ayo fizeram valer a tradicao Aymara e exerceram  sua propria justiça comunitária. Na tarde do dia 14 de Junho, um número inexato de rebeldes sequestrou o então prefeito quando este saía de sua residência na capital do país, levando-o ate sua comunidade no Altiplano boliviano, onde aconteceu o assassinato e a exibição de seu corpo em praça pública.

Uma história de inssurreições nos Andes

O crime traz a tona um ciclo histórico de inssureições Aymaras no país e as contrariedades de um sistema que não respeita nem reconhece os índios em seus direitos, história, usos e costumes. As mobilizações indígenas atuais estao inspiradas nas lutas de líderes como Tupaj Katari,  há dois seculos atrás, e de Zarate Wilka, no século passado.
No ano de 1781, milhares de rebeldes Aymaras liderados por Tupaj Katari cercaram a cidade de La Paz, interceptando a chegada de comida e quase matando de fome seus habitantes. O líder foi condenado à morte e, antes disso, prometeu voltar transformado em milhoes de índios rebeldes.
No final do seculo XIX, os movimentos indígenas outra vez se rebelaram contra o poder  da incompreensão branca e, liderados dessa vez por Pablo Zarate Wilka, organizam-se militarmente contra as forças do Estado.
Em 1952, massas de operários e agricultores lutaram na historica revolução boliviana de 52, conquistando importantes direitos para o povo.
A cultura dos povos andinos de organização e rebelião foi produtora de dezenas de sucesos para as massas bolivianas. Essas importantes revoluções moram ainda hoje no imaginário dos Aymaras, alimentando esses ciclos históricos de resistência.
No ano 2000, a população andina revive a figura revolucionária de Tupaj Katari, cercando novamente a cidade de La Paz, dessa vez na chamada Guerra da Água. Em 2003, na luta pela nacionalizacao do gás boliviano, o povo toma as ruas da capital e da cidade de El Alto, derrubando o então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.

Casos similares de Justiça Comunitária

Casos similares de implantação da chamada justiça comunitária por comunidades indígenas foram vivenciados no lado sul do Lago Titicaca, na Bolívia, e nas proximidades da cidade de Puno, no Peru.
No dia 20 de julho de 2003, a comunidade boliviana de Calacoto fez uso da justiça comunitária para condenar e executar dois de seus integrantes. Elias Mamani e Valentim Ramos  foram mortos por haver roubado o gado de um produtor vizinho.
Ja na comunidade peruana de Llave, no dia 26 de abril deste ano, a população local torturou e assassinou o então prefeito Cirilo Robles, tambem por corrupção, em um caso muito semelhante ao ocorrido em Ayo Ayo.

A importancia da Fazenda Collana

O assassinato de Benjamín Altamirano e a prisão preventiva de Gabriel Pinto, fazem necessário contar a história da Fazenda Collana e de sua importancia no contexto da conturbada cena sócio-política boliviana atual.
A fazenda Collana tem uma extensão de 1.883 hectares sendo, destes, apenas 300 produtivos. Este foi um dos motivos para a recente ocupação por aproximadamente 300 famílias de agricultores do movimento sem-terra boliviano. Além disso, historicamente, a propriedade é conhecida pelo desrespeito e pela exploração dos trabalhadores da região. Não é a toa que no ano de 1984, o então propietario Gonzalo Iturralde, casado com a irmã do ex-presidente Sanches de Lozada, foi tambem assassinado por um de seus funcionários.
Com a morte de Gonzalo Iturralde, a fazenda fica sob propriedade da familia Sánchez de Losada, permanecendo a exploração e o desrespeito para com os funcionarios e pequenos agricultores da região de Ayo Ayo.
A recente ocupação, liderada por Gabriel Pinto, é um fator fundamental para enteder a sua prisão: o líder do MST foi preso, acima de tudo, por desafiar o poder da familia Sánchez Lozada dentro de sua propriedade, numa tentativa por parte do governo boliviano de criminalizar os movimentos sociais do país.

A mobilização dos movimentos sociais

Obviamente, a prisão preventiva declarada pela justiça está muito mais ligada ao assassinato de Benjamín Altamirano do que a ocupacao das terras da familia Sánchez de Lozada. Gabriel Pinto foi preso na manhã da última quinta-feira (12/08), suspeito de assassinato, sequestro e privação de liberdade. Mesmo sem a existência de nenhuma prova contra sua pessoa, ele ficará detido até a apuração de todos os fatos, o que podera significar uma eternidade.
As conseqüências disso ainda não podem ser calculadas, mas pelas declarações de alguns dos líderes sociais bolivianos, uma guerra civil pode estar próxima. Segundo Angel Duran, principal líder dos sem-terra no país, “os movimentos sociais irão se unir para promover uma guerra frontal no país, contra a injustiça e contra o governo”. Para ele as ações comecarão nos próprios latifundios bolivianos. “Vamos destruir todas as grandes fazendas, que são o símbolo da opressão e da oligarquia no país”, afirmou o dirigente logo da prisao de seu colega.
Para Felipe Quispe, representante aymara, “as ações devem começar já nos próximos dias, com bloqueio de ruas, greve de fome e uma luta unida do povo boliviano contra essas injustiças”.
Além de Duran e Quispe, o movimento de luta contra as injustiças passa também pelas mãos de Oscar Olivera, dirigente da Coordenadoria pela Defesa do Gas. “A idéia é estabelecer uma greve de fome com os principais líderes sindicais do país, combinada com uma mobilização em La Paz e Cochábamba entre o MST, a Federacao de Pequenos Agricultores, a Coordenadoria pela Defesa do Gas e outros movimentos”, afirmou Olivera.
Para ele, existem quatro pontos fundamentais nessa luta que devem ser buscados urgentemente: 1) a descriminalização dos movimentos sociais, 2) a alteração da lei de hidrocarbonos do atual presidente Carlos Mesa, 3) a nacionalização da água e 4) a política de exportação das fontes energéticas do país.

Futuro incerto e inquieto

O futuro da Bolivia é incerto e inquieto. A unica certeza, é a de que o povo boliviano esta na ascensão de um processo cíclico de luta e resistência. Desde os primeiros movimentos históricos de insurreição, as massas deste país provaram ser capazes de atingir um nivel de organização suficiente para enfrentar a opressão estatal.
As etnias indígenas formam mais de 70% da população de todo o país e, ao mesmo tempo, formam a grande massa da população boliviana que vive em situações extremas de pobreza, incompreensão e desrespeito. Enquanto essa situação permanecer, a tendência é que o ciclo de lutas populares na Bolivia permaneça forte e crescente.
Se os movimentos sociais estiverem realmente dispostos a buscar essa união presente nos discursos e a atingir um nível de organização forte o suficiente para agüentar a repressão governamental, poderemos, mais uma vez, reviver as históricas revoluções aqui vividas,  em pleno coração da America Latina.

Reply

Our Policy on Comment Submissions: Co-publishers of Narco News (which includes The Narcosphere and The Field) may post comments without moderation. All co-publishers comment under their real name, have contributed resources or volunteer labor to this project, have filled out this application and agreed to some simple guidelines about commenting.

Narco News has recently opened its comments section for submissions to moderated comments (that’s this box, here) by everybody else. More than 95 percent of all submitted comments are typically approved, because they are on-topic, coherent, don’t spread false claims or rumors, don’t gratuitously insult other commenters, and don’t engage in commerce, spam or otherwise hijack the thread. Narco News reserves the right to reject any comment for any reason, so, especially if you choose to comment anonymously, the burden is on you to make your comment interesting and relevant. That said, as you can see, hundreds of comments are approved each week here. Good luck in your comment submission!

The content of this field is kept private and will not be shown publicly.
  • Web page addresses and e-mail addresses turn into links automatically.

More information about formatting options

User login