As vias sanguíneas estão congestionadas.
Há interrupções arteriais engorduradas.
Os ossos descalcificados não suportam
o peso estonteante que os entortam.
Os pés dessa cidade estão tortos
e os dedos das suas mãos, devotos
às suas preces vãs. Desesperados
pedem aos seus atores mais cuidados.
Há músculos lisos estirados
que de esforçados se romperam.
As articulações dobram erradas
tornam as suas pernas esgarçadas.
As coxas suportam esse peso
de um tronco farto de obeso.
No centro cerebral estupefato
rompem-se adutoras num infarto.
Os manauaras não gostam que critiquem Manaus. Mas a crise e crítica são as únicas formas de começar a mudar a exígua infra-estrutura deste conglomerado urbano. Só depois de muito questionamento é que esta cidade vai parar de sofrer com o trânsito descabido, com as quedas constantes de energia, com a ausência no tratamento de esgoto, com o rompimento constante de adutoras e a falta d´água nas casas de uns e da ausência total na casa de outros.
Apesar, de estar localizada na maior bacia hidrográfica do mundo, 850 mil cidadãos de Manaus sofrem com falta d´água todos os dias, principalmente nas zonas Norte e Leste. 300 mil não têm sequer abastecimento. Culpados? O poder público, principalmente, Prefeitura Municipal e seus avalistas da Câmara Municipal que não cancelaram a concessão da distribuição de água. O contrato firmado, em 2000, com a empresa Suez Lyonnaise dês Eaux, vulgo Águas do Amazonas, não foi cumprido.
Ao invés do cancelamento, a empresa francesa foi beneficiada com um indigno aditivo no contrato em janeiro de 2007 pelo Prefeito Serafim Corrêa. No aditivo, está estabelecido que a empresa só tem a obrigação de fornecer água aos manauaras durante 12 horas por dia. O serviço não melhorou, os lucros da empresa sim.
Em janeiro deste ano, haverá outra surpresa, prevista no presentinho do Serafim: reajuste de 9,24% referentes ao período de maio de 2006 à novembro de 2007. Em fevereiro, já havia sido concedido aumento nas tarifas de 24,09% , enquanto a inflação (IGP-M) acumulada em um ano foi de 3,68%. Os manauaras estão pagando caro por um serviço porco. Os donos desta empresinha não estão nem aí, moram na França, tomam banho com água Perrier, ao mesmo tempo que os índios do Brasil, que lhe garantem o luxo, se banham no esgoto dos fétidos igarapés que eles tinham a obrigação de tratar.
Em 2004, o Uruguai declarou a água como bem de todos eproibiu sua privatização Em 2005, a Suez foi expulsa da Bolívia. Em 2006, a Suez foi expulsa da Argentina. Em Manaus, a espoliação está firmada até 2045, ainda há tempo de se fazer justiça.
Daniel fleming é jornalista em Manaus, Brasil, e autor do site dadosinversos.com